quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Perigo

Sua mãe disse "cuidado" antes dela sair de casa. Ela sorriu e respondeu "com o que ? assalto ? vão me roubar o que? tomara que tentem me assaltar mesmo, preciso roubar o ladrão!" e saiu .
Ela sabia que os riscos existiam, mas sempre se sentiu a prova de balas . Se não se sentisse assim, acima do destino, simplesmente não sairia de casa . Sabia que não existia ninguém que ficasse verdadeiramente acima do mal, mas confiava na própria sorte muitas vezes .
De volta pra casa, caminhando pelas mesmas ruas escuras, estava vulnerável, pois dava azar vestir-se de menina.
Nada de blusas de moletons para protege-la, nada de calça jeans e tênis surrado. Não.
Apenas o som das botas tocando o asfalto ... toc ... toc ... toc ... E o vento empurrando a barra do seu vestido.
O casaco de lã, quase não a aquecia, estava ali apenas para deixa-la mais feminina, e vulnerável .
Sozinha
em perigo


Mas ela continuou caminhando, despreocupada .
Passou de uma esquina, começou a pensar ... pensar ... pensar ...
Sabia que para correr perigo, não necessitava apenas de algo de valor . Esquecia-se que tinha a própria vida como algo de valor . Lembrou-se de um amigo
que vagava pela grande São Paulo
entre as madrugadas, passeava. Sentia-se um gato, um andarilho ... Aquilo era um hobbie:
Entrava num trem e ia até a ultima estação . Cada dia uma diferente! Passeava, conhecia novos lugares e depois retornava ao lar . Aquilo era tão sem sentido, mas quem é que disse que para te fazer feliz, precisa ter sentido ?


Mas existem pessoas que apenas estão ali para te fazer mal .
Ele estava no lugar errado, e na hora errada . E de repente, todos os conselhos que ouvimos dos nossos pais para não sair sozinho de noite, faziam sentido, mesmo depois de descobrirmos que bicho papão não existe .
Ele se atrasa para pegar o ultimo trem e voltar para casa. Um novo só pela manhã .
Decide caminhar
Segue um caminho novo, numa trilha com mato ... Plantas ... Ele gosta de plantas, sente-se um aventureiro.
Encontra uma pessoa, um cara, no mesmo caminho, que pede-lhe um cigarro.
Dividem o cigarro, o cara vai embora, e ele continua seguindo . O cara volta, acompanhado de outro. Dizem:
- Vem com a gente
e ele passivamente vai, já esperando o pior .
Entram num terreno baldio. - Ela passava exatamente na frente de um terreno baldio - Passam-lhe um fio de telefone no pescoço, e o esfaqueiam na barriga talvez umas três vezes.
Ele desmaia.
Pensam que está morto, e fogem .
Ele acorda de manhã, levanta-se coberto de sangue, chama na casa vizinha
pede um cobertor e volta a desmaiar .
Acorda num hospital, e vive consciente tempo o suficiente para contar isso a uma amiga .
A amiga que agora caminha por entre ruas escuras e solitárias
sempre acreditando que está acima do perigo .
E já esteve .
Mas é melhor não abusar da sorte, menina .
A visão era turva, estava na hora de trocar o grau dos óculos .
Toc ... toc ... toc ... o salto da bota marrom continuava .
Frio . Não deveria ter saído de vestido . O vestido preto que destacava os joelhos brancos e uma marquinha roxa, de quando bateu a canela no pé da própria cama .
Cruza com alguns vagabundos na rua, e começa a pensar no próximo post pro blog. Sabe que será um daqueles que sentirá medo só de escrever .
Lembranças trazem todo tipo de sentimentos, e nem todos são bons . A maioria não são bons . E hoje ela não vai falar de amor .
Só da noite escura, do amigo quando era consciente, do som das botas no asfalto, dos vagabundos ...
Do homem de bicicleta pedindo para lhe fazer sexo oral .
Que tipo de doente fica repetindo para fazer sexo oral ? Seria menos estranho se tivesse parado e perguntado quanto tá a hora . Doente .
Estou vulnerável, mas não sou acuada . Arranco-lhe ao menos um dente da boca se se aproximar . Pensou .
Será que teria força pra isso ? Será que não estava sendo novamente ingenua ?
Tentaria . Não seria filha de quem era, se não tentasse .
Perigo .

Queria poder voar ... Estar acima de todos os perigos para sempre,
assim como fazia quando era criança .
Sua mãe dizia que crianças são protegidas por anjos, mas sua adolescência toda sempre foi guardada por anjos .
Via que estava começando a se tornar adulta, quando os anjos, vez ou outra, entregavam-lhe com mais frequência ao perigo .
Estava sempre por um tris ...

Um perigo, mas enfim estava a salvo .

2 comentários:

  1. Gostei. O primeiro de outubro. É por isso que tumblr não tem graça... Queria saber contar histórias como você.

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  2. *----------------------*

    Que honra Facurinho hahaha
    pare já com isso, todas as menininhas pagando pau pro seu blog, ow! u.ú (verdade né, no Tumblr não tem muita expectativa, a maioria posta todo dia ...)

    Obrigada Facuri *-* ♥

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